domingo, 1 de outubro de 2017

a saudade da princesa Aurora

Todos acordaram assustados naquela noite. Os empregados, o rei e a ama que repousavam o  corpo cansado dos dias corridos se assustaram com aquela melodia que invadia o castelo. A voz doce escorria  pelas frestas das portas, pelas brechas das janelas,descia as escadas, entrava nos quartos . Há quanto tempo Aurora não cantava?
O rei, ouvindo a voz da filha, não percebeu que uma lágrima escorria pelo rosto. Desde que a mãe partiu, Aurora nunca mais falou, sua voz nunca mais cantou. O rei que criava a filha com todo  o amor que tinha no peito, não sabia mais o que fazer para que a voz de Aurora voltasse. O médico disse que o nome daquilo era saudade da mãe, e que só o tempo curaria a doença de Aurora. Muitos dias se passaram até ficar na memória do pai apenas um fiapo da voz da filha.
Naquela noite, a saudade de Aurora de tão intensa, se transformou em melodia. 
O rei finalmente sentiu o coração leve de novo, nunca mais esqueceria a voz da filha.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Omar

Omar veio correndo com todas as saudades dentro do peito. Veio correndo sentindo os pés pequenos deslizando na areia quente ,a pressa era tanta que Omar nem sentia os beliscões que as conchinhas provocavam na sola do pé, aquilo eram cócegas que ele adorava. Abriu os braços para receber o vento que entrava por baixo da roupa e bagunçava  seus cabelos. Que delícia!  Um dia o pai disse que o nome dessa sensação gostosa é liberdade. Ele achou o nome lindo, então quer dizer que a liberdade mora na praia pai? é Omar, a liberdade mora na praia, o pai respondeu rindo.
Omar ficou apenas cinco dias longe do mar, dias contados um por um. Não gostou de ir no tal shopping, não gostou das ruas cheias de carros barulhentos, mas adorou a escada rolante! Aquilo era muito divertido! Mas nada comparado ás brincadeiras com o amigo.
Omar parou diante do mar e respirou fundo, ele era tão lindo: o mar...Entrou pelado na água, porque peixe não usa roupa, né pai?


sábado, 2 de abril de 2016

debaixo das estrelas

Jerônimo chegou junto com a noite, e ficou ali, paralisado diante de seus poucos móveis. Deixou a sacola com os chás caírem, pensou que era o fim do mundo, o que teria acontecido? Por que estava tudo em desordem do lado de fora da casa?
Rainha Margô Maluca não o viu chegando, estava dormindo no sofá, roncando tão alto, que era quase impossível acreditar que uma rainha tão elegante como ela, roncava! Mas algo foi subindo pela garganta de Jerônimo, subindo, subindo até virar grito, e esse grito era muito mais alto que o ronco da Rainha Margô Maluca, muito mais alto! Ela acordou de um salto, os cabelos ficaram arrepiados, o coração quase saltou pela boca, pensou que fosse algum monstro da floresta (se bem que Jerônimo estava tão irritado, que parecia mesmo um monstro...).
_ O que foi que aconteceu aqui?? Jerônimo tentava respirar, mas se tremia todo.
_Ora, ora meu querido! resolvi fazer uma faxina, e coloquei os móveis aqui fora, mas sabe, me deu uma canseira, não estou acostumada a fazer isso lá no meu castelo, mas hoje achei que seria uma boa ideia, e que você ia gostar de ter uma casa limpa, não é? E pelo jeito faz séculos que essa casa não sabe o que é isso!
_Você é uma intrometida, que chegou feito um cometa na minha casa, e muda tudo de lugar! E agora? vamos dormir aqui fora?
_ Não é uma má ideia! Cadê os chás que pedi pra você comprar hein? Vamos tomar chá debaixo das estrelas e comer bolachas! Achei umas no armário, podemos conversar, ou não...Bem, poderíamos guardar as coisas lá dentro, mas estou cansada, fazer meia faxina é cansativo...Acho muito mais divertido ficar aqui fora e a noite tá tão linda! Você viu? Ah não...você é muito rabugento pra isso né?
Deu uma risadinha, e isso deixou Jerônimo ainda mais irritado. Rainha Margô Maluca fez os chás e serviu as bolachas. Jerônimo continuava calado.Pela primeira vez,  na sua longa vida, ele estava tomando chá debaixo das estrelas e ele não ia confessar isso nunca, mas no fundo, no fundo, ele bem que estava gostando...







quinta-feira, 4 de junho de 2015

lembra logo, senhora Heliodora!

Já fazia algum tempo que a senhora Heliodora estava ali naquele banco. Os pés cansados depois da longa caminhada, os cabelos despenteados, as mãos pousadas no colo. As crianças corriam na praça sem prestarem atenção àquela senhora com ares de sonho. Senhora Heliodora estava elegantemente vestida com seu casaco , apesar do dia quente que fazia, e sua sempre companheira bolsa LuisVoatoa. Era uma senhora muito elegante. O que lhe faltava era memória. Sentada ali, vendo as crianças brincando, reparou numa linda menina ruiva que olhava para o alto da árvore e parecia conversar com ela! Não estranharia se isso fosse verdade, porque sempre conversava com suas flores e amava as árvores. Mas não entendia porque a linda menina ruiva não conversava com a árvore em voz mais baixa, mas aos berros, com sua vozinha de pássaro desafinado. A árvore deixava as folhas caírem feito lágrimas. E eram muitas lágrimas. Senhora Heliodora assistia a cena e tentava ouvir a resposta da árvore. Mas além da memória já fraca, também não conseguia ouvir todos os sons do mundo...
Anita tentava convencer Beto a sair dali, das alturas daqueles galhos gigantes. Mas sua voz parecia não alcançar o menino, que andava de um lado a outro, com grande equilíbrio, sem medo da altura, sem medo de nada(bem, isso é uma pequena mentira).
Senhora Heliodora, curiosa feito um gato, se aproximou de Anita, tentou ouvir a conversa. Mas o que fez foi dar um grande susto na menina, que deu um berro. Enfim, a voz de Anita alcançou Beto, que errando o passo, se desequilibrou. Agora estava ali, pendurado naquela altura, o corpo balançando pra lá e para cá. Ótimo, Anita ia rir dele até os últimos dias de vida dele...Que vergonha!
Mas Anita estava apavorada!
Senhora Heliodora enfim lembrou de ter visto alguma coisa parecida com isso num circo...Ela já tinha ido num circo? ai...ela não se lembrava! Bem, mas isso não era importante...
Debaixo do equilibrista sempre tem uma grande rede, para eles não caírem no chão. Uma grande ideia essa!
A ideia ela tinha, só faltava agora a rede...Onde mesmo que ela viu alguma coisa parecida?
Enquanto senhora Heliodora ( porque ela era muito elegante para ser chamada de dona...é o que ela sempre dizia), tentava lembrar, Beto tentava se equilibrar e Anita, coitada, tentando não desmaiar.

E as mãos de Beto só escorregando...

sábado, 23 de maio de 2015

o barulho do coração



Já fazia algum tempo que Beto estava ali, no alto da árvore, os pés suspensos no ar, soltos e invisíveis para quem estava ali embaixo. Ninguém tinha a curiosidade de olhar para cima, nem para as nuvens ou para a despedida do sol nas tardes de chuva. As pessoas andavam sempre apressadas andando com a cabeça baixa, ou distraídas demais para repararem que acima delas tinha um menino se escondendo de sua própria timidez. Não desconfiavam de nada, não tinham tempo para isso...
Beto tentava adivinhar os pensamentos de Anita quando lesse a sua carta, seu poema escrito numa noite de lua cheia. O que Anita ia pensar, será que ela tinha gostado? E como ela saberia que foi ele que escreveu aquela carta? Não teve coragem de assinar, aí, essa timidez que atrapalhava tanto a sua vida de enamorado...
Ficou ali, vendo as pessoas andando de um lado para o outro, os amigos perguntando por ele, os cachorros latindo, os velhos jogando dominó e...no meio disso tudo, Anita! De repente o silêncio veio e não se ouviu nenhuma voz, nem o latido dos cachorros, nem os gritos dos moleques. Só o coração de Beto batia, e esse era um barulho só , imenso, que o mundo inteiro estava ouvindo.
Anita estava no centro daquele mundo, e tudo de repente estava suspenso no ar, e então ela olhou para cima. E pela primeira vez Beto sentiu medo de altura.
Não foi o vento que contou o segredo de Beto. Anita sempre soube a resposta.






domingo, 5 de abril de 2015

A Cidade Escura


Existe uma cidade que é totalmente escura, que dorme numa noite infinita sem lua e sem estrelas. Uma cidade que de tão pequena não tem nem nome, e que ficou conhecida apenas como A Cidade Escura. A única coisa branca que existe na Cidade Escura são as nuvens transparentes de neblina, que descem a horas certas nos telhados das casas, nos sinos das igrejas, nos campos de flores e nos cabelos das moças solteiras. Quando a nuvem branca chega, todos já sabem que são horas de dormir, porque o dia seguinte será outro sem luz, sem cores.
São  infinitas noites sem lua, onde todos tem a mesma hora de dormir e acordar, Adivinham a hora de despertar pelo vento frio que entra pelas frestas das janelas, sussurrando "levanta,levanta", fazendo cócegas com seus sopros gelados, provocando até os mais preguiçosos a sair da cama quentinha.
As folhas entram pelas janelas , pousam na mesa, entram nas xícaras de café. É outro dia que começa.
As pessoas que vivem na Cidade Escura não são tristes por não conhecerem o sol e seus desenhos de sombras. Desde sempre se acostumaram com as sombras da noite, porque elas mesmas se transformaram em sombras. Se conhecem pelas vozes, pelos sons dos passos, pelas risadas. Não se preocupam muito com a combinação de cores ou se a vestimenta é bonita ou feia, na escuridão, são todos iguais. As moças gostam de sair com seus cabelos soltos ou de deixá-los serem despenteados pelas brincadeiras do vento. Se apaixonam pela voz do amado. Eles, por sua vez, gostam da maciez das mãos das amadas.
As crianças brincam de correr atrás de sombras ou de encontrá-las em esconderijos secretos.
Mas um dia, um cometa rasgou o céu. Um risco inteiro e dourado a cortar o céu escuro.Todos os olhos colados naquele imenso risco desenhado por um cometa.
E pela primeira vez viram outras cores,viram como são feitos os sorrisos, de como são feitas as lágrimas.

O cometa foi embora e trouxe a escuridão de volta. Mas nada seria como antes. Nunca mais.






segunda-feira, 30 de março de 2015

a faxina da Rainha Margô Maluca



Dentro daquela pequena casa perdida no meio da floresta, saía cortinas de poeira.As janelas que há tempos não eram abertas, agora deixavam a poeira ganhar o céu. Lá dentro da pequena casa, era barulho só, coisas atiradas para todos os lados, e gente cantando. Gente cantando? Sim, cantando!
Rainha Margô Maluca experimentava fazer faxina pela primeira vez na sua vida, e estava achando muito divertido. Ora! Era muito simples: precisava apenas colocar as duas cadeiras ( é, naquela casa só tinha duas cadeiras, e uma era manca ) em cima da pequena mesa, afastar o sofá rasgado pra fora, e abrir os armários e tirar de lá as poucas louças que tinha lá dentro. Tudo, claro, sem deixar a elegância de rainha de lado. Bem, só precisava saber se o ranzinza do Jerônimo ia gostar.Mas isso seria deixado para depois, porque  tanto fez que  conseguiu convencer o velho sair  para comprar chá. E como ela não conseguia ficar sem fazer nada, a não ser espirrar ( ó era tanto pó que a coitada não conseguia ficar um minuto sem espirrar!) que, bem, não custaria nada dar uma varridinha, mas daí, ela foi se empolgando, empolgando, e agora, estava tudo assim: empoeirado e de pernas para o ar!
Se Jerônimo encontrasse a casa dele naquela situação, ele arrancaria os poucos fios de cabelo e ia ficar muito bravo...
Rainha Margõ Maluca não achava que era tão complicado assim, mas era tanto pó, que ela mal conseguia enxergar as coisas e espirrava tanto que parou de cantar.
Então ela teve uma ideia que achou incrível: ia colocar todas as coisas lá fora, até a cortina de poeira desaparecer.
Mas o sol estava indo embora, e Jerônimo chegando. E com certeza ele não ia achar muita graça em dormir á luz da lua. Não mesmo...





sexta-feira, 12 de setembro de 2014

o segredo do vento


a primeira carta que Anita recebeu tinha tantas  rugas  e dobrada em tantas partes, que parecia um origami. Abriu-a com a ponta dos dedos finos, com o cuidado de uma médica de cartas machucadas. A cada vez que a desdobrava, tinha a impressão que desmanchava um pássaro de papel. Quase desistiu, mas a curiosidade a cutucava, cochichava nos seus ouvidos : abre, abre...
As palavras eram tão pequenas , cortadas pela linha da dobradura, que era quase impossível lê-las, mas Anita não tinha pressa de desvendar aquele segredo. Lia cada uma com a atenção que elas mereciam, depois de tanto tempo dobradas daquele jeito, porque pela data já fazia um bom tempo que aquela carta havia sido escrita.
Leu seu nome escrito com todo o cuidado, a linha fininha desenhando as letras de forma toda redonda. Parecia letra de menina, daquelas que desenham flores nas beiradas do caderno. Mas aos poucos as palavras lidas diziam que não era bem isso...aquela carta, trazida pelo vento e toda machucada por tantas dobraduras , era uma carta de amor!
Sentiu pena da pobre carta, que parecia ter viajado muito até achar sua janela aberta e ir entrando, trazida pelo vento. Não tinha nome, mas  uma poesia com palavras rimadas, que era inteirinho para ela, Anita.
                                                                     Anita bailarina
suave como o vento
tento disfarçar meu jeito
mas quando te vejo
fico em total desespero
 que saio correndo
porque meu coração 
é todo seu...

O vento fez bem o seu trabalho, trouxe a carta para Anita, e de segredo entendia, porque o nome do poeta, ele não ia falar...






sábado, 31 de maio de 2014

o lago que mora no céu



Naquele céu todo pintado de azul, imensamente azul, um lago morando lá em cima, bem grande que chama a gente para mergulhar os pés e sentir como é fresca a água. Mas ele mora lá no céu, sem uma pinta, uma nuvem, um risco.E tão, tão grande. O sol nada sozinho nesse lago, não derrete porque é rei, e os reis não derretem nunca. Além de desenhar sombras muito bem , ele é ótimo nadador de lagos no céu! Mamãe não acredita em nada do que falo, mas é tudo verdade Banzé! nénão? Ó, porque o rei Sol vive assim tão sozinho nesse lagão? É porque ele acha que os reis devem viver sozinhos, e isso é coisa da cabeça quente dele, porque bom mesmo é viver com todo mundo, né? Banzé, você é um cachorro muito magrela e bobo, eu aqui falando minhas coisas sérias e você só dorme! Vamos dançar?

E Severina sai correndo de pés descalços, levantando a poeira vermelha , rindo sua risada alegre. Dança com  Banzé as músicas que inventa. Os dois são amigos inseparáveis. Desde que aprendeu com a mãe a olhar o céu , ela inventou um sonho: o de encontrar uma nuvem colorida e  dá-la de presente para a mãe. E nunca, nunca mais ela ia precisar ficar olhando esse "lago que mora no céu" a procura de chuva.

Já está cansado Banzé? Sabe...quando a chuva colorida chegar, você vai ter que aprender a nadar, sabia? e você vai ficar colorido e molhado, porque você nunca tomou banho, né? É porque você nunca viu muita água, aí só toma banho de poeira...e fica assim, vermelhinho! Eu nem sei que cor você é de verdade...

Banzé abana a cauda e se deita aos pés de Severina, cansou de tanta dança e brincadeira. E a palavra banho sempre lhe dá um medo danado!
Amanhã será outro dia de brincadeiras com a amiga. E talvez, quem sabe eles não tenham uma surpresa? Quem sabe?





( pintura : Vincent Van Gogh )












quarta-feira, 23 de abril de 2014

o desaparecimento da senhora Heliodora


A senhora Heliodora penteou o cabelo, que era bem branquinho, colocou os óculos de aros vermelhos, escolheu um vestido xadrez , pegou sua bolsa Luis Voatoa , deu uma olhadinha no espelho e saiu . Cumprimentou dona Maria Julieta, que estava aguando as flores no jardim, sorriu para o neto da dona Eduardina, brincou com o cachorro do seu Felipo e disse algumas coisinhas pra ele. Dobrou a esquina, passou na quitanda do seu Frederico,onde comprou quatro maçãs, uma pera, uma cabeça de alface e dois dentes de alho. Saiu dando adeusinho e dizendo que o dia estava lindo. Entrou no ônibus Jardim Azul 488 e...nunca mais foi vista. Sua casa está apagada desde o dia em que saiu e não voltou mais. A grama secou, as flores morreram. Os passarinhos foram embora, as gaiolas estavam com as portinholas abertas.
Dona Maria Julieta tem certeza que ela usava um vestido xadrez, mas o seu Felipo já acha que era listrado de amarelo e que ela combinava muito com aquela estampa. Não lembra o que conversaram, porque sua memória anda apagando coisas. Mas gostavam de conversar  sobre receitas que passam na televisão. Eram fãs da Anamaria Praga, não perdiam um programa dela. Bem, mas naquela manhã, perderam. Ela saiu mais cedo e ele, preferiu sair com o Doguito, seu cachorro.
Dona Eduardina , avó do pequeno Alonso, disse que ela estava muito elegante aquela manhã, de casaco e tudo, não viu que estampa era o vestido.Mas tem certeza que ela usava um casaco. Embora estivesse um dia lindo de céu claro. Naquele dia, não conversaram porque ela parecia estar com pressa, mas parou um pouquinho para conversar com Alonso, que gostava dela porque sempre ganhava balas. Viu que ela dobrou a esquina e foi embora.
Foi seu Frederico, dono da quitanda, que a viu entrando no ônibus Jardim Azul 488, reparou nisso porque a acompanhou até a calçada e a viu correndo com seus passinhos miúdos e fazendo sinal com os braços fininhos para que o ônibus parasse. Foi ele o primeiro a falar da bolsa Luis Voatoa, porque é bem reparador de detalhes. Sobre a compra, lembra de cada item, porque  anotou num bloquinho, dona Heliodora ia pagá-lo depois, como sempre fazia.Sim, ela estava de casaco, embora estivesse aquele calorão.
Para onde foi a senhora Heliodora ? Por que sumiu e nunca mais deu notícias ?
No ônibus ninguém a viu, nem com casaco, nem bolsa Luis Voatoa, nem com cabeça de alface... As pessoas não costumam olhar para o lado, a reparar nos outros, a ver se tem alguém triste ou perdido por perto. Depois que ela entrou nesse ônibus, ela se tornou apenas mais uma pessoa. Mais uma pessoa indo para algum lugar.E que não voltou mais.
A senhora Heliodora virou um mistério.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

como escrever uma carta de amor




_Existe toda uma técnica em escrever cartas românticas Beto, eu sou um especialista em escrever cartas irresistíveis, a sua avó foi conquistada com apenas uma ! E eu sei, que até hoje ela guarda essa carta no nosso álbum de casamento. Eu sou o melhor, he he !
Beto não queria ter nenhuma técnica para escrever cartas e não sabia de onde o avô tinha tirado a ideia de que ela seria romântica... Ele queria escrever uma carta para Anita, mas Só porque ele andava muito mais distraído que sempre, esquecido dos afazeres e recados, tropeçando em esquinas e escadas, não queria dizer que ele estava apaixonado, apenas atrapalhado, oras, quem nunca passou por momentos de "atrapalhamentos"? Beto, além de ficar com a cabeça nas nuvens, também adorava rimar e inventar palavras - atrapalhamento- era uma delas.
 E esquecimento era outra que vivia atrapalhando os planos do vovô Petrônio, é ele tinha esse nome estranho, mas inesquecível, que para disfarçar que estava procurando o bloco de papel e caneta, fez Beto despertar dos sonhos.
_Beto, adivinha onde o vovô colocou o bloco de papel!
Beto não precisava adivinhar, sabia onde os papéis moravam, na gaveta da escrivaninha, como sempre.
_Primeiro, você precisa pensar no que quer escrever, nos substantivos mais apropriados, nos adjetivos mais encantadores, aqueles que exaltam o coração, que fazem ele suspirar resplandecido de emoção, e que o amor fique enaltecido, entorpecido , enriquecido!
Beto adorava as palavras, mas aquelas que vovô Petrônio falava, estavam muito complicadas e pensou que se escrevesse do jeito que ele ensinava, Anita não entenderia nada, ou pior, desistiria de ler a carta, até dormiria, talvez achasse que era um problema de matemática!
Deixando as palavras do vovô Petrônio voarem pela janela, Beto pegou apenas algumas, escreveu -as no papel fininho, tentou caprichar na letra. Dobrou o papel. E vovô Petrônio lá falando, falando,falando que nem reparou que Beto já escrevia sua carta - que NÃO era romântica, oras... e guardou-a no bolso da calça.
_E então, ela ficará paralisada de tanta emoção!
Beto não queria ver Anita paralisada, queria ver pelo menos um sorriso! Talvez foi assim, com a vovó Filomena paralisada ,que o vovô Petrônio a pediu em casamento.
Com  a carta guardada  deixou vovô Petrônio com suas infinitas palavras complicadas voando com o vento. Um dia, quando tivesse coragem, ele ia entregar a carta para Anita. Mas isso...nem ele sabia quando seria...





terça-feira, 18 de março de 2014

o ladrão de beijos



Debaixo da sombra da árvore , as folhas caídas, e acima delas, os pés flutuantes de Anita. E entre Anita e o mundo existia o silêncio guardado. E para ouvir o barulho de alguma coisa, Anita pisou nas folhas secas, a brisa virou vento levando algumas folhas para longe e então Anita teve coragem de olhar para o lado. O coração parecia mais calmo agora, mas ainda estava assustado. Ou feliz? Sentado ao seu lado Beto olhava as folhas que dançavam com o vento. Será que ele também estava feliz? Ou assustado com o beijo que ele roubou? Será que agora ele era um ladrão de beijos? Essa ideia fez um sorriso nascer.
_Do que você está rindo Beto? de mim?
A voz de Anita , lembrou-se agora, era linda! era tão delicada, tão dela e agora tão sua...Mas Beto estava morrendo de vergonha, seu rosto queimava, ser um ladrão de beijos era algo muito recente...e estava na dúvida se ia cometer esse crime outras vezes...
_Não Anita, nunca vou rir de você...estava rindo de outras coisas. Ideias malucas que me enchem a cabeça, muitas coisas.
O vento bagunçava os cabelos de Anita, desfazia sua trança ruiva ,soltava os fios que dançavam diante do seu rosto sardento.
Agora era ela quem ria.
_E por que você está rindo Anita? De mim?
_Sim, é de você, seu bobo! Por tantas coisas que se passam por essa sua cabeça avoada, nunca reparou em mim. Levou tanto tempo para me roubar esse beijo! Para ser um bom ladrão de beijos, precisa estar acordado!

E antes que Beto sentisse a primeira gota de chuva, Anita saiu correndo , o cabelo todo livre.


( ilustração : Rebecca Dautramer )





segunda-feira, 3 de março de 2014

a memória do vovô




Eu não sei para onde vai a memória do vovô. De vez em quando ela sai para passear e deixa ele sozinho no meio de uma história que está contando. Ele fecha os olhos, aperta os dedos e tenta espremer as ideias de dentro da cabeça, e depois de muita procura e de nada achar ele diz: a memória me fugiu, não me lembro...E então a história fica com um buraco e aí ele começa outra história que vai ter outro buraco no meio.
Também esquece onde guarda os óculos, os livros, as chaves. E para isso teve uma ideia que ele achou ótima : não guarda mais nada, deixa tudo esparramado: na mesa, na cadeira que fica na varanda e até na piscina encontramos seu óculos boiando.
A memória do vovô também  adora sumir quando ele vai cumprimentar alguém e como o nome não vem, ele manda aquele que ele acha mais bonito, aí a pessoa olha meio estranho, o vovô finge que não percebeu nada, estende a mão, dá um abraço e vai embora todo sorridente.
Quando vai fazer as compras da vovó é ainda pior, teimoso como é não quer anotar as coisas que tem que comprar , tem certeza que a memória precisa ser exercitada, mas preguiçosa do jeito que ela anda, nunca dá certo e quando ele volta do mercado cheio de frutas e doces e nada de arroz e feijão, vovó não acredita mais em memória fraca e fica bem brava com ele. Mas ele nem liga e fala que ela não sabe ver as coisas engraçadas da vida.
Meu avô é uma delícia! Ele esquece muitas coisas, mas nunca esquece de ser educado, de ser divertido e de ser feliz. Isso ele diz que não vai esquecer nunca. Espero que não.

ilustração Juan Faria :http://biblioabrazo.wordpress.com/2011/06/16/un-cesto-lleno-de-palabras-juan-farias/

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

depois daquele susto



A chuva há muito parou de cair, mesmo que algumas gotinhas ainda se desprendessem  dos galhos das árvores como lágrimas, a chuva de verdade já não existia mais. O que existia agora era um silêncio entre duas pessoas que nunca se viram antes. Um silêncio parecido com a noite que chegava. Uma noite sem estrelas.
Mas a Rainha Margô Maluca que não tinha muita paciência com silêncio e timidez, foi logo se levantando do tombo, ajustando a imensa saia vermelha, a cabeleira cacheada ainda com as gotas de chuva e dando outra de suas risadas animadas. A risada entrou pela casa como um eco, foi entrando pelos corredores, quartos, cozinha e na sala onde agora estava ela e Jerônimo, parado e com a boca aberta feito uma estátua assustada e feia.
Há muito tempo aquela casa não sabia o que era o som de uma risada, de alegria e  novidade chegando pelas janelas escancaradas. Desde que a vida foi embora junto com a falecida senhora da casa, tudo ali era silêncio dentro de uma noite infinita. Jerônimo guardou as palavras , inventou manias estranhas, fechou as janelas e portas e esqueceu o que era alegria. Ficou chato, ranzinza e cinza.

_Aaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiii!!! Meu pé ! Você é maluca??? Por que pisou no meu pé sua maluca?
_ Ah...então você é de verdade? Pensei que você fosse uma estátua! Ficou aí parado com a boca aberta e nem para me oferecer um chá! Isto não se faz com uma visita sabia?
_ E desde quando a senhora é minha visita? A senhora caiu no meio da sala, feito um cometa!
_ Adoro cometas! acho que sou assim mesmo: um cometa brilhante e lindo. Então, cadê o chá?

Não tinha chá, nem café, nem bolachas para servir visitas que caem feito cometas no meio da sala. Havia apenas a vontade de Jerônimo que a Rainha Margô Maluca desaparecesse.

Mas isso ela não queria fazer. Ainda...


(ilustração : Ester García http://www.estarsequieta.com/index.php)








sábado, 12 de outubro de 2013

o primeiro encontro




Lá dentro  da escuridão Jerônimo ouvia a chuva caindo, tentava adivinhar quantas gotas existia na chuva. A casa tão dentro da escuridão, ele tão sozinho. Rainha Margô Maluca com os pés molhados e nenhuma dúvida em pedir ajuda, estava morrendo de frio e seus cabelos estavam lisos de tanta água. Bateu com os nós dos dedos na porta , deu três batidinhas,encolheu o corpo, tremia. O vento balançava a árvore, esparramava as folhas. Jerônimo ouviu, aproximou-se da porta, tentou enxergar pelas frestas, se assustou, nunca viu figura mais exótica. Parecia uma ave rara. Rainha Margô Maluca espirrou. Jerônimo deu um pulo para trás. Não deixaria aquela criatura estranha entrar na sua casa...ah não! Ficaria quieto e logo ela desistiria, iria embora. Voltou para a sua cadeira  de balança, em breve seu sossego e solidão voltariam e ele tentaria resolver o mistério das gotas de chuva, quantas seriam?
Então de repente viu um galho entrando pela janela, ela toda se rangendo, e não com muito esforço as frestas foram se abrindo, gotas de chuva entravam sem cerimônia, assim como o vento e as folhas e não estavam sozinhos: uma ave raríssima acabara de despencar no chão da sala. Rainha Margô Maluca, apesar do tombo, dava altas risadas, afinal conseguiu um esconderijo da chuva interminável. Espirrou de novo. Uma,duas,três vezes. Estava ensopada. E foi então que reparou na presença de Jerônimo. Ele paralisado de susto. Ela com a risada entalada na garganta.


ilustração : Ester García http://3ster.blogspot.com.br/

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Jerônimo




Há muito tempo que o silêncio vivia naquele castelo. Ás vezes, nas frestas das portas e nos cantos das janelas , entrava uns rabiscos de sol , que ficavam desenhados no chão empoeirado daquele castelo solitário. Não havia passos de dança, nem música para mexer o corpo, não tinha barulho de coisas caindo, nem de água borbulhando na chaleira. O vento não fazia brincadeiras nas cortinas rasgadas, porque as janelas viviam fechadas, os parafusos enferrujaram. A porta não se abria, porque nunca mais recebeu uma visita.Os passos que andavam lá dentro, se arrastavam em chinelas de pano. Só o ruído da cadeira de balanço se fazia ouvir naquele deserto escuro que era aquele castelo. Nhém,nhém,nhémmm. Barulho baixinho que fazia o senhor de barbas longas e corpo magro dormir dias inteiros e ficar a contar as estrelas a noite. Contava as gotas de chuva que caía no telhado, fechava os olhos e contava: uma, duas, três...três mil e uma gotas, três mil e duas... assim, como se fosse possível contá-las e passava o tempo a imaginar a chuva, porque não queria abrir as janelas de parafusos enferrujados.
A primeira a ir embora foi a esposa  . Depois, os empregados, os bichos, as vozes e até o barulho. Ficou sozinho com sua rabugice, grosseria, egoismo e a falta de vontade de ser agradável. Ficou sozinho com a mania de contar as coisas incontáveis.
E debaixo das gotas infinitas de chuva,com a cabeleira molhada e desmanchada , os sapatos vermelhos transformados em lagos, chegava a Rainha Margô Maluca, com sua incontida alegria, seus gestos largos, sua risada barulhenta - ingredientes perfeitos para estragar qualquer mundo chato.
O mundo do velho Jerônimo estava prestes a se transformar.


( ilustração Kestutis Kasparavicius )

segunda-feira, 20 de maio de 2013

azul




Eu imagino que todas as coisas no mundo deveriam ser pintadas de azul. Além do céu e do mar, que eu imagino azul profundo, as estrelas, as flores, a terra, o pó , meu cachorro Banzé , meu cabelo sarará, a boca desdentada do papai e o silêncio da mamãe : tudo lindamente azul. De todas as profundezas e clarezas. O mundo ficaria todo azul e lindo. Porque azul é a cor  das lágrimas do rei Sol. E no dia em que ele chorar suas lágrimas cairão na terra , no pó , nas flores e nas árvores peladas. E cada lágrima vai pintar a terra de azul! O Banzé vai ficar todinho azul e vai  latir feito bobo para a vaquinha Mococa que também ficará azul. E o rei Sol vai chorar por dias e noites, derramando suas lágrimas no seu reino. Eu vou brincar com as lágrimas que formarão pequenas lagoas , as folhas e as flores vão olhar o céu e cada vez mais as lágrimas cairão molhando a pele da gente, todo mundo tomando banho debaixo do céu azul. A noite chegará com suas estrelas azuis e vamos continuar dançando, porque será uma grande festa. Mas  será um mistério porque o rei Sol vai chorar tanto, porque todos estarão muito ocupados brincando debaixo de suas lágrimas. Mas se  ele desse uma olhadinha aqui embaixo veria como é divertido ser feliz e até ia querer ser azul! Ficaria Lindo!



    
( ilustração Jimmy Liao )

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Beto e Anita




Beto sente o aroma doce, muito doce que o vento traz. Fecha os olhos e imagina. Os cabelos de Anita são tão leves que dançam sozinhos. Anita dança feito bailarina . Uma bailarina que dança com o vento de aroma doce. Beto ainda está de olhos fechados  imaginando Anita dançando com o vento. As folhas estão caídas no chão, o vento parou de brincar e os olhos de Beto ainda estão fechados. A mão de Anita toca de leve a mão de Beto. A flor vermelha está adormecida. Anita sorri toda tímida quando os olhos de Beto se abrem. Beto não sabe onde colocou as palavras que escreveu, talvez o vento tenha levado longe, ficou apenas a flor adormecida. Anita parece ainda mais bonita que uma bailarina, ainda mais bonita que nos seus sonhos. Anita é de verdade e pergunta baixinho como Beto está e se aquela flor bonita é para ela. Beto sorri e seu coração fica enorme dentro do peito tão pequeno. A flor tão linda acorda nas mãos delicadas de Anita. Seu beijo pousa leve no rosto de Beto. O vento volta a brincar com as folhas. Os cabelos soltos de Anita dançam. Beto nunca vai esquecer quando sentiu o aroma doce de Anita tão perto.




( ilustração Rebecca Dautremer )

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

a Princesa Severina e as lágrimas do REi Sol




Severina sentia a água debaixo dos pés pequenos e ria. Pela primeira  vez , sentia a emoção da água na pele queimada de sol e achou a sensação de pele molhada uma frescura de gostoso. Severina olhava os pezinhos  na água adormecida nas poças de terra molhada e achava que a água fosse viva, a brincar de escorregar entre seus dedinhos, a fazer cócegas na sola dos pés, a deslizar na pele em gotas tão pequenas. Severina estava encantada com a água caída do céu em grandes lágrimas de chuva. Nunca tinha visto tantas lágrimas assim, nem no rosto da mamãe que vivia olhando o céu azul do Rei Sol. Severina pulava de poça em poça, a desenhar na terra molhada suas pequenas pegadas, queria esparramar pegadas de barro por todos os cantos do MUNDO! Fazer desenhos de água nas paredes da sua casinha branca. Dar banho no cachorro Banzé, mas talvez ele não achasse essa ideia assim muito boa, afinal de contas, Banzé só tomava banho de poeira...e estava muito assustado com essa água toda caída do céu, mas brincava, porque adorava ficar perto de Severina. 
Severina achava a chuva um mistério, como tantas gotinhas nasciam assim? Imaginou que elas fossem as lágrimas do Rei Sol, talvez ele estivesse triste.Talvez estivesse apaixonado de amor. Mas esse já é outro mistério que a Severina não quer resolver.  Ela só  quer brincar de ser feliz !


( ilustração - Simone Matias )


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

o diário da Rainha Margô Maluca





acordei com uma saudade do ontem, de um ontem que fica lá longe na memória, um ontem que não é o dia que dormiu e acordou hoje, é um ontem de outros tempos. Não sei explicar as coisas direito, nunca soube, sou assim tão atrapalhada para explicar... será que é por isso sou chamada de Rainha Margô Maluca? As minhas ideias coloridas, minhas músicas favoritas, tudo era motivo de risadas no meu reino e um dia inventei de andar o mundo e atravessar a ponte, enfiei meus sapatinhos vermelhos dentro da lama, nasceram calos enormes nos meus pés, o vestido rasgou-se em véus. Meu cabelo revoltou-se. Mas era tudo aventura, era ainda tudo descoberta. Encontrei outro castelo cheio de crianças e elas adoraram minhas ideias e não me acharam maluca, me disseram que queriam também encontrar essas novidades todas que imagino. Mas hoje acordei com essa saudade de um ontem de longe, do cheiro  do bolo, do vento bagunceiro, das flores do meu jardim. Mas...ainda nem descobri as coisas maravilhosas desse mundo! Minhas descobertas ainda nem entraram na minha bolsa vermelha!

Ainda não posso voltar para o castelo. Meu sétimo sentido diz que ainda tenho muito a descobrir! então vou escrever um diário : AS Aventuras da Rainha Margô Maluca ! Minhas ideias estão aparecendo e a saudade do ontem vai adormecer logo, logo!

Adoro ideias!


( ilustração - Alexandra Petracchi )