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quarta-feira, 9 de abril de 2014

como escrever uma carta de amor




_Existe toda uma técnica em escrever cartas românticas Beto, eu sou um especialista em escrever cartas irresistíveis, a sua avó foi conquistada com apenas uma ! E eu sei, que até hoje ela guarda essa carta no nosso álbum de casamento. Eu sou o melhor, he he !
Beto não queria ter nenhuma técnica para escrever cartas e não sabia de onde o avô tinha tirado a ideia de que ela seria romântica... Ele queria escrever uma carta para Anita, mas Só porque ele andava muito mais distraído que sempre, esquecido dos afazeres e recados, tropeçando em esquinas e escadas, não queria dizer que ele estava apaixonado, apenas atrapalhado, oras, quem nunca passou por momentos de "atrapalhamentos"? Beto, além de ficar com a cabeça nas nuvens, também adorava rimar e inventar palavras - atrapalhamento- era uma delas.
 E esquecimento era outra que vivia atrapalhando os planos do vovô Petrônio, é ele tinha esse nome estranho, mas inesquecível, que para disfarçar que estava procurando o bloco de papel e caneta, fez Beto despertar dos sonhos.
_Beto, adivinha onde o vovô colocou o bloco de papel!
Beto não precisava adivinhar, sabia onde os papéis moravam, na gaveta da escrivaninha, como sempre.
_Primeiro, você precisa pensar no que quer escrever, nos substantivos mais apropriados, nos adjetivos mais encantadores, aqueles que exaltam o coração, que fazem ele suspirar resplandecido de emoção, e que o amor fique enaltecido, entorpecido , enriquecido!
Beto adorava as palavras, mas aquelas que vovô Petrônio falava, estavam muito complicadas e pensou que se escrevesse do jeito que ele ensinava, Anita não entenderia nada, ou pior, desistiria de ler a carta, até dormiria, talvez achasse que era um problema de matemática!
Deixando as palavras do vovô Petrônio voarem pela janela, Beto pegou apenas algumas, escreveu -as no papel fininho, tentou caprichar na letra. Dobrou o papel. E vovô Petrônio lá falando, falando,falando que nem reparou que Beto já escrevia sua carta - que NÃO era romântica, oras... e guardou-a no bolso da calça.
_E então, ela ficará paralisada de tanta emoção!
Beto não queria ver Anita paralisada, queria ver pelo menos um sorriso! Talvez foi assim, com a vovó Filomena paralisada ,que o vovô Petrônio a pediu em casamento.
Com  a carta guardada  deixou vovô Petrônio com suas infinitas palavras complicadas voando com o vento. Um dia, quando tivesse coragem, ele ia entregar a carta para Anita. Mas isso...nem ele sabia quando seria...





segunda-feira, 3 de março de 2014

a memória do vovô




Eu não sei para onde vai a memória do vovô. De vez em quando ela sai para passear e deixa ele sozinho no meio de uma história que está contando. Ele fecha os olhos, aperta os dedos e tenta espremer as ideias de dentro da cabeça, e depois de muita procura e de nada achar ele diz: a memória me fugiu, não me lembro...E então a história fica com um buraco e aí ele começa outra história que vai ter outro buraco no meio.
Também esquece onde guarda os óculos, os livros, as chaves. E para isso teve uma ideia que ele achou ótima : não guarda mais nada, deixa tudo esparramado: na mesa, na cadeira que fica na varanda e até na piscina encontramos seu óculos boiando.
A memória do vovô também  adora sumir quando ele vai cumprimentar alguém e como o nome não vem, ele manda aquele que ele acha mais bonito, aí a pessoa olha meio estranho, o vovô finge que não percebeu nada, estende a mão, dá um abraço e vai embora todo sorridente.
Quando vai fazer as compras da vovó é ainda pior, teimoso como é não quer anotar as coisas que tem que comprar , tem certeza que a memória precisa ser exercitada, mas preguiçosa do jeito que ela anda, nunca dá certo e quando ele volta do mercado cheio de frutas e doces e nada de arroz e feijão, vovó não acredita mais em memória fraca e fica bem brava com ele. Mas ele nem liga e fala que ela não sabe ver as coisas engraçadas da vida.
Meu avô é uma delícia! Ele esquece muitas coisas, mas nunca esquece de ser educado, de ser divertido e de ser feliz. Isso ele diz que não vai esquecer nunca. Espero que não.

ilustração Juan Faria :http://biblioabrazo.wordpress.com/2011/06/16/un-cesto-lleno-de-palabras-juan-farias/

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Tia Teófila, Tia Setembrina e Tia Celestina na festa de aniversário do vovô Petrônio

Chegaram com suas vozes e risadas, falavam tanto que deixavam todos meio tontos e perdidos. Tia Tenebrina com seu vestido de bolinhas e cabelos cacheados procurava nas bolsas coloridas alguma coisa esquecida, pois sempre se esquecia de tudo, a tia Setembrina com cores a estampar o rosto era toda perfumada  e a tia Celestina era a calma em tudo, mas era tão, tão calma que quase dormia em pé ou sentada.
As três tias chegaram para comemorar o aniversário do vovô Petrônio, uma festa  para dançar a noite inteira !Ele até inventou uns passinhos : dois passinhos pra lá, dois pra cá, uma voltinha, mãozinha pra cima, outra voltinha...com tantas voltinhas assim o difícil era não ficar tonto!
A tia Teófila ficou perdida, esqueceu pra que lado tinha que ir, o perfume extra forte da tia Setembrina fez todo mundo espirrar e a tia Celestina, bem, essa dormiu no sofá abraçada com a almofada. Cada uma trouxe um presente , até tia Teófila que levou um ótimo remédio para a memória , que talvez ela não tomasse já que a dela era péssima, tia Setembrina um perfume espanta-defunto e os vivos também (esse vovô guardou no fundo da gaveta ) e tia Celestina deu uma almofada de penas de ganso, super fofo. A festa ainda durou a noite toda com todas as suas voltinhas, foi a festa mais comentada do bairro Cogumelo Amarelo!

( ilustração La Torta Apetitosa - Robert Romanowicz )