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quinta-feira, 4 de junho de 2015

lembra logo, senhora Heliodora!

Já fazia algum tempo que a senhora Heliodora estava ali naquele banco. Os pés cansados depois da longa caminhada, os cabelos despenteados, as mãos pousadas no colo. As crianças corriam na praça sem prestarem atenção àquela senhora com ares de sonho. Senhora Heliodora estava elegantemente vestida com seu casaco , apesar do dia quente que fazia, e sua sempre companheira bolsa LuisVoatoa. Era uma senhora muito elegante. O que lhe faltava era memória. Sentada ali, vendo as crianças brincando, reparou numa linda menina ruiva que olhava para o alto da árvore e parecia conversar com ela! Não estranharia se isso fosse verdade, porque sempre conversava com suas flores e amava as árvores. Mas não entendia porque a linda menina ruiva não conversava com a árvore em voz mais baixa, mas aos berros, com sua vozinha de pássaro desafinado. A árvore deixava as folhas caírem feito lágrimas. E eram muitas lágrimas. Senhora Heliodora assistia a cena e tentava ouvir a resposta da árvore. Mas além da memória já fraca, também não conseguia ouvir todos os sons do mundo...
Anita tentava convencer Beto a sair dali, das alturas daqueles galhos gigantes. Mas sua voz parecia não alcançar o menino, que andava de um lado a outro, com grande equilíbrio, sem medo da altura, sem medo de nada(bem, isso é uma pequena mentira).
Senhora Heliodora, curiosa feito um gato, se aproximou de Anita, tentou ouvir a conversa. Mas o que fez foi dar um grande susto na menina, que deu um berro. Enfim, a voz de Anita alcançou Beto, que errando o passo, se desequilibrou. Agora estava ali, pendurado naquela altura, o corpo balançando pra lá e para cá. Ótimo, Anita ia rir dele até os últimos dias de vida dele...Que vergonha!
Mas Anita estava apavorada!
Senhora Heliodora enfim lembrou de ter visto alguma coisa parecida com isso num circo...Ela já tinha ido num circo? ai...ela não se lembrava! Bem, mas isso não era importante...
Debaixo do equilibrista sempre tem uma grande rede, para eles não caírem no chão. Uma grande ideia essa!
A ideia ela tinha, só faltava agora a rede...Onde mesmo que ela viu alguma coisa parecida?
Enquanto senhora Heliodora ( porque ela era muito elegante para ser chamada de dona...é o que ela sempre dizia), tentava lembrar, Beto tentava se equilibrar e Anita, coitada, tentando não desmaiar.

E as mãos de Beto só escorregando...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

o desaparecimento da senhora Heliodora


A senhora Heliodora penteou o cabelo, que era bem branquinho, colocou os óculos de aros vermelhos, escolheu um vestido xadrez , pegou sua bolsa Luis Voatoa , deu uma olhadinha no espelho e saiu . Cumprimentou dona Maria Julieta, que estava aguando as flores no jardim, sorriu para o neto da dona Eduardina, brincou com o cachorro do seu Felipo e disse algumas coisinhas pra ele. Dobrou a esquina, passou na quitanda do seu Frederico,onde comprou quatro maçãs, uma pera, uma cabeça de alface e dois dentes de alho. Saiu dando adeusinho e dizendo que o dia estava lindo. Entrou no ônibus Jardim Azul 488 e...nunca mais foi vista. Sua casa está apagada desde o dia em que saiu e não voltou mais. A grama secou, as flores morreram. Os passarinhos foram embora, as gaiolas estavam com as portinholas abertas.
Dona Maria Julieta tem certeza que ela usava um vestido xadrez, mas o seu Felipo já acha que era listrado de amarelo e que ela combinava muito com aquela estampa. Não lembra o que conversaram, porque sua memória anda apagando coisas. Mas gostavam de conversar  sobre receitas que passam na televisão. Eram fãs da Anamaria Praga, não perdiam um programa dela. Bem, mas naquela manhã, perderam. Ela saiu mais cedo e ele, preferiu sair com o Doguito, seu cachorro.
Dona Eduardina , avó do pequeno Alonso, disse que ela estava muito elegante aquela manhã, de casaco e tudo, não viu que estampa era o vestido.Mas tem certeza que ela usava um casaco. Embora estivesse um dia lindo de céu claro. Naquele dia, não conversaram porque ela parecia estar com pressa, mas parou um pouquinho para conversar com Alonso, que gostava dela porque sempre ganhava balas. Viu que ela dobrou a esquina e foi embora.
Foi seu Frederico, dono da quitanda, que a viu entrando no ônibus Jardim Azul 488, reparou nisso porque a acompanhou até a calçada e a viu correndo com seus passinhos miúdos e fazendo sinal com os braços fininhos para que o ônibus parasse. Foi ele o primeiro a falar da bolsa Luis Voatoa, porque é bem reparador de detalhes. Sobre a compra, lembra de cada item, porque  anotou num bloquinho, dona Heliodora ia pagá-lo depois, como sempre fazia.Sim, ela estava de casaco, embora estivesse aquele calorão.
Para onde foi a senhora Heliodora ? Por que sumiu e nunca mais deu notícias ?
No ônibus ninguém a viu, nem com casaco, nem bolsa Luis Voatoa, nem com cabeça de alface... As pessoas não costumam olhar para o lado, a reparar nos outros, a ver se tem alguém triste ou perdido por perto. Depois que ela entrou nesse ônibus, ela se tornou apenas mais uma pessoa. Mais uma pessoa indo para algum lugar.E que não voltou mais.
A senhora Heliodora virou um mistério.