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sábado, 2 de abril de 2016

debaixo das estrelas

Jerônimo chegou junto com a noite, e ficou ali, paralisado diante de seus poucos móveis. Deixou a sacola com os chás caírem, pensou que era o fim do mundo, o que teria acontecido? Por que estava tudo em desordem do lado de fora da casa?
Rainha Margô Maluca não o viu chegando, estava dormindo no sofá, roncando tão alto, que era quase impossível acreditar que uma rainha tão elegante como ela, roncava! Mas algo foi subindo pela garganta de Jerônimo, subindo, subindo até virar grito, e esse grito era muito mais alto que o ronco da Rainha Margô Maluca, muito mais alto! Ela acordou de um salto, os cabelos ficaram arrepiados, o coração quase saltou pela boca, pensou que fosse algum monstro da floresta (se bem que Jerônimo estava tão irritado, que parecia mesmo um monstro...).
_ O que foi que aconteceu aqui?? Jerônimo tentava respirar, mas se tremia todo.
_Ora, ora meu querido! resolvi fazer uma faxina, e coloquei os móveis aqui fora, mas sabe, me deu uma canseira, não estou acostumada a fazer isso lá no meu castelo, mas hoje achei que seria uma boa ideia, e que você ia gostar de ter uma casa limpa, não é? E pelo jeito faz séculos que essa casa não sabe o que é isso!
_Você é uma intrometida, que chegou feito um cometa na minha casa, e muda tudo de lugar! E agora? vamos dormir aqui fora?
_ Não é uma má ideia! Cadê os chás que pedi pra você comprar hein? Vamos tomar chá debaixo das estrelas e comer bolachas! Achei umas no armário, podemos conversar, ou não...Bem, poderíamos guardar as coisas lá dentro, mas estou cansada, fazer meia faxina é cansativo...Acho muito mais divertido ficar aqui fora e a noite tá tão linda! Você viu? Ah não...você é muito rabugento pra isso né?
Deu uma risadinha, e isso deixou Jerônimo ainda mais irritado. Rainha Margô Maluca fez os chás e serviu as bolachas. Jerônimo continuava calado.Pela primeira vez,  na sua longa vida, ele estava tomando chá debaixo das estrelas e ele não ia confessar isso nunca, mas no fundo, no fundo, ele bem que estava gostando...







segunda-feira, 30 de março de 2015

a faxina da Rainha Margô Maluca



Dentro daquela pequena casa perdida no meio da floresta, saía cortinas de poeira.As janelas que há tempos não eram abertas, agora deixavam a poeira ganhar o céu. Lá dentro da pequena casa, era barulho só, coisas atiradas para todos os lados, e gente cantando. Gente cantando? Sim, cantando!
Rainha Margô Maluca experimentava fazer faxina pela primeira vez na sua vida, e estava achando muito divertido. Ora! Era muito simples: precisava apenas colocar as duas cadeiras ( é, naquela casa só tinha duas cadeiras, e uma era manca ) em cima da pequena mesa, afastar o sofá rasgado pra fora, e abrir os armários e tirar de lá as poucas louças que tinha lá dentro. Tudo, claro, sem deixar a elegância de rainha de lado. Bem, só precisava saber se o ranzinza do Jerônimo ia gostar.Mas isso seria deixado para depois, porque  tanto fez que  conseguiu convencer o velho sair  para comprar chá. E como ela não conseguia ficar sem fazer nada, a não ser espirrar ( ó era tanto pó que a coitada não conseguia ficar um minuto sem espirrar!) que, bem, não custaria nada dar uma varridinha, mas daí, ela foi se empolgando, empolgando, e agora, estava tudo assim: empoeirado e de pernas para o ar!
Se Jerônimo encontrasse a casa dele naquela situação, ele arrancaria os poucos fios de cabelo e ia ficar muito bravo...
Rainha Margõ Maluca não achava que era tão complicado assim, mas era tanto pó, que ela mal conseguia enxergar as coisas e espirrava tanto que parou de cantar.
Então ela teve uma ideia que achou incrível: ia colocar todas as coisas lá fora, até a cortina de poeira desaparecer.
Mas o sol estava indo embora, e Jerônimo chegando. E com certeza ele não ia achar muita graça em dormir á luz da lua. Não mesmo...





sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

depois daquele susto



A chuva há muito parou de cair, mesmo que algumas gotinhas ainda se desprendessem  dos galhos das árvores como lágrimas, a chuva de verdade já não existia mais. O que existia agora era um silêncio entre duas pessoas que nunca se viram antes. Um silêncio parecido com a noite que chegava. Uma noite sem estrelas.
Mas a Rainha Margô Maluca que não tinha muita paciência com silêncio e timidez, foi logo se levantando do tombo, ajustando a imensa saia vermelha, a cabeleira cacheada ainda com as gotas de chuva e dando outra de suas risadas animadas. A risada entrou pela casa como um eco, foi entrando pelos corredores, quartos, cozinha e na sala onde agora estava ela e Jerônimo, parado e com a boca aberta feito uma estátua assustada e feia.
Há muito tempo aquela casa não sabia o que era o som de uma risada, de alegria e  novidade chegando pelas janelas escancaradas. Desde que a vida foi embora junto com a falecida senhora da casa, tudo ali era silêncio dentro de uma noite infinita. Jerônimo guardou as palavras , inventou manias estranhas, fechou as janelas e portas e esqueceu o que era alegria. Ficou chato, ranzinza e cinza.

_Aaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiii!!! Meu pé ! Você é maluca??? Por que pisou no meu pé sua maluca?
_ Ah...então você é de verdade? Pensei que você fosse uma estátua! Ficou aí parado com a boca aberta e nem para me oferecer um chá! Isto não se faz com uma visita sabia?
_ E desde quando a senhora é minha visita? A senhora caiu no meio da sala, feito um cometa!
_ Adoro cometas! acho que sou assim mesmo: um cometa brilhante e lindo. Então, cadê o chá?

Não tinha chá, nem café, nem bolachas para servir visitas que caem feito cometas no meio da sala. Havia apenas a vontade de Jerônimo que a Rainha Margô Maluca desaparecesse.

Mas isso ela não queria fazer. Ainda...


(ilustração : Ester García http://www.estarsequieta.com/index.php)








sábado, 12 de outubro de 2013

o primeiro encontro




Lá dentro  da escuridão Jerônimo ouvia a chuva caindo, tentava adivinhar quantas gotas existia na chuva. A casa tão dentro da escuridão, ele tão sozinho. Rainha Margô Maluca com os pés molhados e nenhuma dúvida em pedir ajuda, estava morrendo de frio e seus cabelos estavam lisos de tanta água. Bateu com os nós dos dedos na porta , deu três batidinhas,encolheu o corpo, tremia. O vento balançava a árvore, esparramava as folhas. Jerônimo ouviu, aproximou-se da porta, tentou enxergar pelas frestas, se assustou, nunca viu figura mais exótica. Parecia uma ave rara. Rainha Margô Maluca espirrou. Jerônimo deu um pulo para trás. Não deixaria aquela criatura estranha entrar na sua casa...ah não! Ficaria quieto e logo ela desistiria, iria embora. Voltou para a sua cadeira  de balança, em breve seu sossego e solidão voltariam e ele tentaria resolver o mistério das gotas de chuva, quantas seriam?
Então de repente viu um galho entrando pela janela, ela toda se rangendo, e não com muito esforço as frestas foram se abrindo, gotas de chuva entravam sem cerimônia, assim como o vento e as folhas e não estavam sozinhos: uma ave raríssima acabara de despencar no chão da sala. Rainha Margô Maluca, apesar do tombo, dava altas risadas, afinal conseguiu um esconderijo da chuva interminável. Espirrou de novo. Uma,duas,três vezes. Estava ensopada. E foi então que reparou na presença de Jerônimo. Ele paralisado de susto. Ela com a risada entalada na garganta.


ilustração : Ester García http://3ster.blogspot.com.br/

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Jerônimo




Há muito tempo que o silêncio vivia naquele castelo. Ás vezes, nas frestas das portas e nos cantos das janelas , entrava uns rabiscos de sol , que ficavam desenhados no chão empoeirado daquele castelo solitário. Não havia passos de dança, nem música para mexer o corpo, não tinha barulho de coisas caindo, nem de água borbulhando na chaleira. O vento não fazia brincadeiras nas cortinas rasgadas, porque as janelas viviam fechadas, os parafusos enferrujaram. A porta não se abria, porque nunca mais recebeu uma visita.Os passos que andavam lá dentro, se arrastavam em chinelas de pano. Só o ruído da cadeira de balanço se fazia ouvir naquele deserto escuro que era aquele castelo. Nhém,nhém,nhémmm. Barulho baixinho que fazia o senhor de barbas longas e corpo magro dormir dias inteiros e ficar a contar as estrelas a noite. Contava as gotas de chuva que caía no telhado, fechava os olhos e contava: uma, duas, três...três mil e uma gotas, três mil e duas... assim, como se fosse possível contá-las e passava o tempo a imaginar a chuva, porque não queria abrir as janelas de parafusos enferrujados.
A primeira a ir embora foi a esposa  . Depois, os empregados, os bichos, as vozes e até o barulho. Ficou sozinho com sua rabugice, grosseria, egoismo e a falta de vontade de ser agradável. Ficou sozinho com a mania de contar as coisas incontáveis.
E debaixo das gotas infinitas de chuva,com a cabeleira molhada e desmanchada , os sapatos vermelhos transformados em lagos, chegava a Rainha Margô Maluca, com sua incontida alegria, seus gestos largos, sua risada barulhenta - ingredientes perfeitos para estragar qualquer mundo chato.
O mundo do velho Jerônimo estava prestes a se transformar.


( ilustração Kestutis Kasparavicius )