terça-feira, 10 de abril de 2012
o liVRO da caPa verMElha
A vovó Filomena anda com umas ideias diferentes ultimamente e acho que foi depois que ela ficou trancada na biblioteca. Estava ela lá limpando as estantes, tirando o pó adormecido dos livros, acarinhando suas páginas e de repente veio o vento e pá fechou a porta da biblioteca ,a chave do lado de fora caiu e foi parar debaixo do sofá. Ficou trancada na biblioteca e ninguém sabia que ela estava lá, só o vento... e pensa que ela se chateou ? ou bateu desesperada na porta ? ou fez escândalo para tirarem-na dali ? Não! Ali era o verdadeiro paraíso! Colocou a música de seus discos de vinil para tocar e começou a viajar nas páginas dos livros, a continuar sua limpeza cuidadosa quando achou um livro de capa vermelha linda que a chamava venha, venha , vovó pegou e quando abriu que surpresa : era seu álbum de casamento! Há tanto tempo ali guardado ela nem se lembrava mais! Ela de vestido branco de princesa e um sorriso apaixonado, o vovô Petrônio de terno e cara de bobo atrapalhado. Ela com o vestido a arrastar no chão , a dançar a valsa , ele com a gravata a amarrar o pescoço e a desencontrar os pés na dança. Ela sem desistir de sorrir, ele sem esquecer de dizer eu te amo. Dançavam no salão enquanto a música tocava e o vovô gritava . Gritava? Vovó Filomena despertou das lembranças com os gritos do vovô Petrônio, como se ela estivesse em grandes apuros. Abriram a porta e encontraram vovó Filomena com cara de felicidade e acreditem depois que saiu de lá anda com vontade de dançar valsas, a comemorar o encontro com vovô Petrônio e a dizer eu te amo a toda hora e pra todo mundo. Acho que a biblioteca deixa a gente maluco.
terça-feira, 27 de março de 2012
um BaLÉ engRAçaDO
O vento levou o lenço colorido da vovó Filomena. O lenço rodopiava no ar, se contorcia , se espalhava , abria suas estampas no ar. O vento brincava com o tecido fino do lenço colorido da vovó Filomena, dançava com ele lá em cima, viajava pelos galhos das árvores, nos telhados da casa , pelo sono do cachorro Filósofo. O lenço voava com sua cor amarela e flores vermelhas, brincando com a vovó que ficava na ponta dos pés tentando pegá-lo com os dedos finos esticados no alto. Vovô Petrônio ria da brincadeira do vento e do balé desajeitado da vovó Filomena que de cabelos soltos e bagunçados não achava graça nenhuma mas logo também começou a rir, porque o seu lenço já não estava mais sozinho: agora estava acompanhado do chapéu do vovô Petrônio, os dois dançavam juntos : o chapéu e o lenço. O chapéu dava piruetas fantásticas no ar, vovô Petrônio tentava pegá-lo e segurando o cabo da vassoura tentava pescá-lo , mas o chapéu travesso sempre fugia. O vento também trouxe a música dos discos empoeirados da vovó Filomena, era o que faltava para aquele balé engraçado ficar completo. A música tocava embalando a dança do lenço e do chapéu . Embalava a dança engraçada da vovó Filomena e do vovô Petrônio. Enquanto isso o cachorro Filósofo sonhava.
( ilustração Rebecca Dautremer )
segunda-feira, 12 de março de 2012
ela É o meu SOl
Há dias o vento não brinca , as folhas caem moles no chão quente, a brisa tão delicada não consegue afastar o calor que parece cozinhar a carne da gente, e lembrei daqueles filmes onde os índios cozinhavam os brancos , bem, tentavam porque eles sempre conseguiam fugir e eu nunca vi como era preparado aquele cozido...Os dias estavam muito quentes, a vovó Filomena prendia os cabelos em lenços coloridos, cada dia usava um, seus cabelos ficavam presos no alto da cabeça parecendo um bolo de aniversário, dizia que era para o vento soprar gostoso na nuca, e eu achava engraçado essa frase da vovó, vovô Petrônio usava as calças arregaçadas, deixando as canelas finas à mostra, os pés ficavam esparramados nas chinelas de borracha, suava em bicas mas não usava lenços coloridos para prender os cabelos, ainda bem, senão acharia muito estranho, Lili , minha irmãzinha , ficava debaixo de seu guarda-chuva mágico e dizia que ali o sol não seria convidado, ficaria sempre pra fora do seu esconderijo, sem contar que ali todos ficavam transparentes, esse é o poder mágico do guarda-chuva da Lili, mas já fiquei ali e ainda não sei como é ser transparente...mamãe ainda consegue me enxergar para dar bronca. Nesses dias de sol reinante nem papagaio Funéreo canta o fim do mundo de tão desanimado que fica, Bartolomeu , o gato , só falta tomar banho de chuveiro e o cachorro Filósofo continua dormindo, como sempre...assim como meu coração que sempre que está perto de Anita desperta, estremece , amolece. Ela é o meu sol.
( ilustração Nicolas Gouny )
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
o Gato BartOlomEu
Bartolomeu era o gato aventureiro da vovó Filomena. Sujo da alma ás patas amarelas , ele não só detestava banho como também não gostava das coisas muito arrumadas, se assim estivessem ele mesmo as bagunçaria : nada que um rasgãozinho na cortina, uns arranhõezinhos nas almofadas, e claro, deixar suas patinhas marcadas no sofá, na cama, no chão recém-lavado da cozinha... Bartolomeu se achava o galã único da casa, embora seus pelos amarelos fossem encardidos, seus bigodes quebrados e uma das orelhas faltando um pedacinho, de tanto a vovó Filomena chamá-lo de lindo ele se convenceu de que era o único, o mais maravilhoso, o mais perfeito de todos os felinos. Bartolomeu adorava sair em suas aventuras noturnas, e na maioria das vezes voltava ainda mais estropiado. Vovó Filomena dava muitas broncas, mas logo se compadecia dele e lhe enchia de esparadrapos. Certa vez, ficou parecendo um gato-múmia de tão enfaixado que estava.
Naquela semana ele foi a piada no bairro, nada que abalasse sua fama de aventureiro. Bartolomeu adorava desafiar os outros gatos e atrapalhar o sono do cachorro Filósofo , que passava as tardes dormindo debaixo das sombras das árvores e só latia desesperado quando Funéreo, o papagaio, anunciava o fim do mundo, aliás, ele era o eterno alvo de Bartolomeu. Mas Funéreo era mais esperto e corajoso que Filósofo e sempre espantava o gato valente com seu escândalo e suas bicadas doloridas. Mas agora Bartolomeu descansa, porque logo que as estrelas chegarem ele partirá em busca de mais aventuras!
( ilustração Nicolas Gouny )
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
o Guarda-chuva da Lili
Lili queria um guarda-chuva de bolinhas. Um guarda-chuva de bolinhas igual do elefante Godofredo.Um guarda-chuva de bolinhas igual do elefante Godofredo e que tivesse poderes especiais. Um guarda-chuva de bolinhas igual do elefante Godofredo que tivesse poderes especiais e mudasse de cor. Um guarda-chuva de bolinhas igual do elefante Godofredo que tivesse poderes especiais , mudasse de cor e tocasse música. Um guarda-chuva de bolinhas igual do elefante Godofredo, que tivesse poderes especiais, mudasse de cor, tocasse música e fosse um esconderijo secreto também dos raios do sol. Os raios de sol, por mais que tentassem, não conseguiam entrar nesse esconderijo quase secreto, onde a música vinha da boca de uma menininha que cantava sempre a mesma música, também não mudava de cor, sempre vermelho que era e também não tinha poderes especiais e nem tinha as tão famosas bolinhas. Lili tinha o seu guarda-chuva vermelho de coração e inventou que daria a ele as famosas bolinhas e as pintou de várias cores e tamanhos e o guarda-chuva de Lili que antes era apenas vermelho de coração, era agora salpicado de pintinhas e bolinhas coloridas, e quando Lili ficava debaixo de sua sombra ficava transparente, ninguém conseguia vê-la e então ele ganhou um poder especial ! E só ali as gotas da chuva ficavam coloridas, só ali o sol ficava com pintinhas coloridas. O guarda-chuva da Lili era mágico !
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
O Papagaio Funéreo
O papagaio Funéreo era diferente de todos os outros papagaios. Não cantava em dias de sol, nem o Hino Nacional nem dos times de futebol. Ele adorava cantar nos dias de chuva e o tema não era dos mais alegres : era sobre o fim do mundo ! Vovó Filomena preferia chamá-lo de Fufu - como para espantar o agouro do nome - mas o vovô Petrônio ,que o encontrou sozinho numa noite de chuva, o batizou de Funéreo assim que ele começou a cantar o fim do mundo. Ele devia achar isso um grande acontecimento pois cantava na maior alegria, principalmente se chovia com raios e trovões, talvez achando que o mundo ia acabar mesmo , cantava, cantava : alala ôôô o mundo acaboooouu!! Vovó Filomena vivia passando vergonha por causa do papagaio , que também aprendeu a dizer Fim dos Tempos, Fim dos Tempos!! Ele estava espantando as visitas de final de tarde.Vovô Petrônio adorava Funéreo e vivia repetindo como ele encontrou o pobre bichinho abandonado na casa onde vivia um senhor muito estranho chamado Nostradamus, que vivia vestido de preto e também tinha dessa mania de prever o fim dos tempos, foi daí que Funéreo deve ter aprendido a infeliz previsão. Mas agora vivendo naquela casinha de paredes coloridas cheia de barulhos diversos , onde o Sr Silêncio jamais chegaria, ele aprenderá frases mais felizes e engraçadas, porque inspiração para isso não faltará!
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
O silêncio Não Existe
O silêncio nunca existiu naquela casa , mesmo quando todos dormiam ou quando o vento descansava das suas brincadeiras e deixava as árvores repousarem em paz, mesmo quando a música calava e os bichos dormiam, nunca existia silêncio naquela casa.Sempre tinha uma gota a cair na pia, o arrastar dos móveis no chão, a voz alta do vovô Petrônio, o papagaio Funéreo que cantava a altos brados que o mundo ia acabar, a voz baixinha da vovó Filomena que falava sozinha mas nunca, jamais acreditava nisso, dizia que os netos estavam inventando coisas. O silêncio passava longe daquela casa de paredes brancas por fora e coloridas por dentro, passava pela calçada e jamais fazia uma visita naquela casa de sons variados. Vovô Petrônio dizia que o silêncio não existia, mesmo se ficássemos sozinhos num quarto com as janelas fechadas, o silêncio não existiria porque se ouviria as batidas do próprio coração. Mas assim que Anita começou a tocar seus dedos fininhos no piano, uma música muito suave dançava no ar e então o barulho por um momento dormiu, deixando a música de Anita passear na sala e até o papagaio Funéreo parou de cantar o fim do mundo, também ele queria ouvir a música, quase podia-se acreditar que o Sr Silêncio enfim entrara naquela casa , mas Beto sabia que ele não estava lá, porque ouvia o barulho do próprio coração a dançar dentro dele.
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