quinta-feira, 28 de junho de 2012

Eu vi a Rainha Margô Maluca!



A primeira vez que vi sapatos assim vermelhos foi quando uma certa Rainha Margô Maluca pisou meu reino com os cabelos já descacheados de vento, a roupa vermelha como um coração vivo me aparece na lembrança como uma única coisa que nunca esquecerei naquele dia de inverno. O rosto de uma brancura que parecia neve e uma risada que parecia o verão. Eu , um senhor de certa idade avançada e lembranças antigas achei aquela rainha Margô um pouco maluca, assim como o nome dela. Disse que queria descobrir o mundo que existia depois da ponte, que estava procurando animais de outras estampas , passarinhos que cantassem outras músicas, flores de cores brilhantes. Imagina, eu jamais tive dessas curiosidades e se eu achar desses bichos estranhos vou é embora daqui! Mas a Rainha Margô Maluca tinha a certeza que esse mundo existia e falou com tanto amor que até comecei a acreditar nas palavras dela! Essa rainha encanta a gente com as palavras, elas vão saindo assim aos montes e de uma vez de sua boca sorridente. O sol já estava se despedindo e eu só esperando ela perguntar se as estrelas dançavam, porque já estava aprendendo o jeito dela. Mas só sorriu bonito e disse  que adorava o céu estrelado. Quando ela chegou no meu simples castelo as crianças a adoraram, os meus netos. Foi uma noite de muitas histórias!




( ilustração Anja Klaus http://anjaklauss.ultra-book.com/portfolio )

sábado, 9 de junho de 2012

A viagem da Rainha Margô Maluca - parte I



Rainha Margô Maluca abriu a janela e deixou o vento entrar. Suspirou. E sonhou com outras paisagens, outras ruas e outros risos.E imaginou um arco-íris a nascer além da ponte. Imaginou bichos com estampas diferentes. Imaginou um mundo mais colorido que o seu. Imaginou ainda mais um monte de coisas.Porque imaginar não era um problema para a rainha. Um mundo de coisas que não existiam no seu reino (e será que existiam em outros reinos?). Rainha Margô Maluca andava entediada de ver a mesma campina verde de flores estranhas e tristes. As mesmas vozes, os mesmos pássaros cantando as mesmas músicas. Os dias sempre iguais.  E decidiu viajar de férias . Decidiu assim sozinha e não contou nada pra ninguém. Era seu segredo secreto inventado de última hora. A ideia iluminou seu espírito , iluminou seu coração. E assim toda iluminada saiu pelas portas dos fundos do castelo. O vento a soprar canções nos seus ouvidos e a espalhar seu cabelo de algodão. Saiu com seu sempre vestido vermelho de veludo e seus sapatos de coração. Não levou mais nada, só a vontade de conhecer outros horizontes . Pensou até que ninguém sentiria a sua falta. Imagina, quem não sentiria a falta da rainha? E Rainha Margô Maluca sem um pingo de maluquice saiu toda feliz de curiosidade. O que teria do outro lado da ponte? Será que ela encontraria o mundo imaginado por ela? Como seria a vida dos seus súditos sem a risada da Rainha Margô Maluca? Enquanto essas perguntas voavam pelo ar, ela ia andando, andando, cantando e imaginando esse mundo colorido.Será que ele existia? Será?






( ilustração Mariana Kalacheva - http://kalacheva.com/en/ )

terça-feira, 15 de maio de 2012

desenhos de água




Eu desenhei pegadas no chão. Desenhei com água enquanto mamãe lavava a cozinha. As minhas pegadas de água andavam por toda a casa. E depois levei minhas pegadas para o quintal e lá elas desapareciam debaixo do sol. Iam sumindo assim devagarinho e eu ia lá na cozinha e molhava meus pezinhos e voltava a desenhar pegadas no quintal. ERa bem divertido e mesmo com mamãe  pedindo para parar com a brincadeira eu continuava. Também desenhava com a ponta do dedo desenhos de água, e tudo ia sumindo. Acho que o sol estava comendo meus desenhos , então eu desenhava bolos bem grandes, de casamento que são os mais gostosos de todos, e desenhava bichinhos também. Aprendi a desenhar gatinho e cachorrinho. Faz um círculo grande e em cima um pequeno, que é a cabeça, depois as patinhas, as orelhinhas, os olhinhos, o bigodinnho e...o rabinho!! Mas o sol andava tão fominha que eu nem conseguia terminar o risco e ele ia comendo antes de eu terminar! Queria mostrar minha arte para mamãe, mas quando ela foi ao quintal já não tinha nem um desenho...o sol comeu tudo! Mamãe deu risada e disse que bem sabia a arte que eu estava fazendo. Mamãe também tinha o poder da adivinhação? E depois que o sol comeu bastante e estava de barriga cheia,ele foi dormir. E eu também fui e sonhei a noite toda com meus desenhos de água.

( ilustração Nicolas Gouncy )

terça-feira, 10 de abril de 2012

o liVRO da caPa verMElha




A vovó Filomena anda com umas ideias diferentes ultimamente e acho que foi depois que ela ficou trancada na biblioteca. Estava ela lá limpando as estantes, tirando o pó adormecido dos livros, acarinhando suas páginas e de repente veio o vento e pá fechou a porta da biblioteca ,a chave do lado de fora caiu e foi parar debaixo do sofá. Ficou trancada na biblioteca e ninguém sabia que ela estava lá, só o vento... e pensa que ela se chateou ?  ou bateu desesperada na porta ? ou fez escândalo para tirarem-na dali ? Não! Ali era o verdadeiro paraíso! Colocou a música de seus discos de vinil para tocar e começou a viajar nas páginas dos livros, a continuar sua limpeza cuidadosa quando achou um livro de capa vermelha linda que a chamava  venha, venha , vovó pegou e quando abriu que surpresa : era seu álbum de casamento! Há tanto tempo ali guardado ela nem se lembrava mais! Ela de vestido branco de princesa e um sorriso apaixonado, o vovô Petrônio de terno e cara de bobo atrapalhado. Ela com o vestido a arrastar no chão , a dançar a valsa , ele com a gravata a amarrar o pescoço e a desencontrar os pés na dança. Ela sem desistir de sorrir, ele sem esquecer de dizer eu te amo. Dançavam no salão enquanto a música tocava e o vovô gritava . Gritava? Vovó Filomena despertou das lembranças com os gritos do vovô Petrônio, como se ela estivesse em grandes apuros. Abriram a porta e encontraram vovó Filomena com cara de felicidade e acreditem depois que saiu de lá anda com vontade de dançar valsas, a comemorar o encontro com vovô Petrônio e a dizer eu te amo a toda hora e pra todo mundo. Acho que a biblioteca deixa a gente maluco.

terça-feira, 27 de março de 2012

um BaLÉ engRAçaDO


O vento levou o lenço colorido da vovó Filomena. O lenço rodopiava no ar, se contorcia , se espalhava ,  abria suas estampas no ar. O vento brincava com o tecido fino do lenço colorido da vovó Filomena, dançava com ele lá em cima, viajava pelos galhos das árvores, nos telhados da casa , pelo sono do cachorro Filósofo. O lenço voava com sua cor amarela e flores vermelhas, brincando com a vovó que ficava na ponta dos pés tentando pegá-lo com os dedos finos esticados no alto. Vovô Petrônio ria da brincadeira do vento e do balé desajeitado da vovó Filomena que de cabelos soltos e bagunçados não achava graça nenhuma mas logo também começou a rir, porque o seu lenço já não estava mais sozinho: agora estava acompanhado do chapéu do vovô Petrônio, os dois dançavam juntos : o chapéu e o lenço. O chapéu  dava piruetas fantásticas no ar, vovô Petrônio  tentava pegá-lo e segurando o cabo da vassoura tentava pescá-lo , mas o chapéu travesso sempre fugia. O vento também trouxe a música dos discos empoeirados da vovó Filomena, era o que faltava para aquele balé engraçado ficar completo. A música tocava embalando a dança do lenço e do chapéu . Embalava a dança engraçada da vovó Filomena e do vovô Petrônio. Enquanto isso o cachorro Filósofo sonhava.


( ilustração Rebecca Dautremer )

segunda-feira, 12 de março de 2012

ela É o meu SOl


Há dias o vento não brinca , as folhas caem moles no chão quente, a brisa tão delicada não consegue afastar o calor que  parece cozinhar a carne da gente, e lembrei daqueles filmes onde os índios cozinhavam os brancos , bem, tentavam porque eles sempre conseguiam fugir e eu nunca vi como era preparado aquele cozido...Os dias estavam  muito quentes, a vovó Filomena prendia os cabelos em lenços coloridos, cada dia usava um, seus cabelos ficavam presos no alto da cabeça parecendo um bolo de aniversário, dizia que era para o vento soprar gostoso na nuca, e eu achava engraçado essa frase da vovó, vovô Petrônio usava as calças arregaçadas, deixando as canelas finas à mostra, os pés ficavam esparramados nas chinelas de borracha, suava em bicas mas não usava lenços coloridos para prender os cabelos, ainda bem, senão acharia muito estranho, Lili , minha irmãzinha , ficava debaixo de seu guarda-chuva mágico e dizia que ali o sol não seria convidado, ficaria sempre pra fora do seu esconderijo, sem contar que ali todos ficavam transparentes, esse é o poder mágico do guarda-chuva da Lili, mas já fiquei ali e ainda não sei como é ser transparente...mamãe ainda consegue me enxergar para dar bronca. Nesses dias de sol reinante nem papagaio Funéreo canta o fim do mundo de tão desanimado que fica, Bartolomeu , o gato , só falta tomar banho de chuveiro e o cachorro Filósofo continua dormindo, como sempre...assim como meu coração que sempre que está perto de Anita  desperta, estremece , amolece. Ela é o meu sol.


( ilustração Nicolas Gouny )

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

o Gato BartOlomEu


Bartolomeu era o gato aventureiro da vovó Filomena. Sujo da alma ás patas amarelas , ele não só detestava banho como também não gostava das coisas muito arrumadas, se assim estivessem ele mesmo as bagunçaria : nada que um rasgãozinho na cortina, uns arranhõezinhos nas almofadas, e claro, deixar suas patinhas marcadas no sofá, na cama, no chão recém-lavado da cozinha... Bartolomeu se achava o galã único da casa, embora seus pelos amarelos fossem encardidos, seus bigodes quebrados e uma das orelhas faltando um pedacinho, de tanto a vovó Filomena chamá-lo de lindo ele se convenceu de que era o único, o mais maravilhoso, o mais perfeito de todos os felinos. Bartolomeu adorava sair em suas aventuras noturnas, e na maioria das vezes voltava ainda mais estropiado. Vovó Filomena dava muitas broncas, mas logo se compadecia dele e lhe enchia de esparadrapos. Certa vez, ficou parecendo um gato-múmia de tão enfaixado que estava.
Naquela semana ele foi a piada no bairro, nada que abalasse sua fama de aventureiro. Bartolomeu adorava desafiar os outros gatos e atrapalhar o sono do cachorro Filósofo , que  passava as tardes dormindo debaixo das sombras das árvores e só latia desesperado quando Funéreo, o papagaio, anunciava o fim do mundo, aliás, ele era o eterno alvo de Bartolomeu. Mas Funéreo era mais esperto e corajoso que Filósofo e sempre espantava o gato valente com seu escândalo e suas bicadas doloridas. Mas agora Bartolomeu descansa, porque logo que as estrelas chegarem ele partirá em busca de mais aventuras!



( ilustração Nicolas Gouny )