segunda-feira, 20 de maio de 2013
azul
Eu imagino que todas as coisas no mundo deveriam ser pintadas de azul. Além do céu e do mar, que eu imagino azul profundo, as estrelas, as flores, a terra, o pó , meu cachorro Banzé , meu cabelo sarará, a boca desdentada do papai e o silêncio da mamãe : tudo lindamente azul. De todas as profundezas e clarezas. O mundo ficaria todo azul e lindo. Porque azul é a cor das lágrimas do rei Sol. E no dia em que ele chorar suas lágrimas cairão na terra , no pó , nas flores e nas árvores peladas. E cada lágrima vai pintar a terra de azul! O Banzé vai ficar todinho azul e vai latir feito bobo para a vaquinha Mococa que também ficará azul. E o rei Sol vai chorar por dias e noites, derramando suas lágrimas no seu reino. Eu vou brincar com as lágrimas que formarão pequenas lagoas , as folhas e as flores vão olhar o céu e cada vez mais as lágrimas cairão molhando a pele da gente, todo mundo tomando banho debaixo do céu azul. A noite chegará com suas estrelas azuis e vamos continuar dançando, porque será uma grande festa. Mas será um mistério porque o rei Sol vai chorar tanto, porque todos estarão muito ocupados brincando debaixo de suas lágrimas. Mas se ele desse uma olhadinha aqui embaixo veria como é divertido ser feliz e até ia querer ser azul! Ficaria Lindo!
( ilustração Jimmy Liao )
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Beto e Anita
Beto sente o aroma doce, muito doce que o vento traz. Fecha os olhos e imagina. Os cabelos de Anita são tão leves que dançam sozinhos. Anita dança feito bailarina . Uma bailarina que dança com o vento de aroma doce. Beto ainda está de olhos fechados imaginando Anita dançando com o vento. As folhas estão caídas no chão, o vento parou de brincar e os olhos de Beto ainda estão fechados. A mão de Anita toca de leve a mão de Beto. A flor vermelha está adormecida. Anita sorri toda tímida quando os olhos de Beto se abrem. Beto não sabe onde colocou as palavras que escreveu, talvez o vento tenha levado longe, ficou apenas a flor adormecida. Anita parece ainda mais bonita que uma bailarina, ainda mais bonita que nos seus sonhos. Anita é de verdade e pergunta baixinho como Beto está e se aquela flor bonita é para ela. Beto sorri e seu coração fica enorme dentro do peito tão pequeno. A flor tão linda acorda nas mãos delicadas de Anita. Seu beijo pousa leve no rosto de Beto. O vento volta a brincar com as folhas. Os cabelos soltos de Anita dançam. Beto nunca vai esquecer quando sentiu o aroma doce de Anita tão perto.
( ilustração Rebecca Dautremer )
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
a Princesa Severina e as lágrimas do REi Sol
Severina sentia a água debaixo dos pés pequenos e ria. Pela primeira vez , sentia a emoção da água na pele queimada de sol e achou a sensação de pele molhada uma frescura de gostoso. Severina olhava os pezinhos na água adormecida nas poças de terra molhada e achava que a água fosse viva, a brincar de escorregar entre seus dedinhos, a fazer cócegas na sola dos pés, a deslizar na pele em gotas tão pequenas. Severina estava encantada com a água caída do céu em grandes lágrimas de chuva. Nunca tinha visto tantas lágrimas assim, nem no rosto da mamãe que vivia olhando o céu azul do Rei Sol. Severina pulava de poça em poça, a desenhar na terra molhada suas pequenas pegadas, queria esparramar pegadas de barro por todos os cantos do MUNDO! Fazer desenhos de água nas paredes da sua casinha branca. Dar banho no cachorro Banzé, mas talvez ele não achasse essa ideia assim muito boa, afinal de contas, Banzé só tomava banho de poeira...e estava muito assustado com essa água toda caída do céu, mas brincava, porque adorava ficar perto de Severina.
Severina achava a chuva um mistério, como tantas gotinhas nasciam assim? Imaginou que elas fossem as lágrimas do Rei Sol, talvez ele estivesse triste.Talvez estivesse apaixonado de amor. Mas esse já é outro mistério que a Severina não quer resolver. Ela só quer brincar de ser feliz !
( ilustração - Simone Matias )
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
o diário da Rainha Margô Maluca
acordei com uma saudade do ontem, de um ontem que fica lá longe na memória, um ontem que não é o dia que dormiu e acordou hoje, é um ontem de outros tempos. Não sei explicar as coisas direito, nunca soube, sou assim tão atrapalhada para explicar... será que é por isso sou chamada de Rainha Margô Maluca? As minhas ideias coloridas, minhas músicas favoritas, tudo era motivo de risadas no meu reino e um dia inventei de andar o mundo e atravessar a ponte, enfiei meus sapatinhos vermelhos dentro da lama, nasceram calos enormes nos meus pés, o vestido rasgou-se em véus. Meu cabelo revoltou-se. Mas era tudo aventura, era ainda tudo descoberta. Encontrei outro castelo cheio de crianças e elas adoraram minhas ideias e não me acharam maluca, me disseram que queriam também encontrar essas novidades todas que imagino. Mas hoje acordei com essa saudade de um ontem de longe, do cheiro do bolo, do vento bagunceiro, das flores do meu jardim. Mas...ainda nem descobri as coisas maravilhosas desse mundo! Minhas descobertas ainda nem entraram na minha bolsa vermelha!
Ainda não posso voltar para o castelo. Meu sétimo sentido diz que ainda tenho muito a descobrir! então vou escrever um diário : AS Aventuras da Rainha Margô Maluca ! Minhas ideias estão aparecendo e a saudade do ontem vai adormecer logo, logo!
Adoro ideias!
( ilustração - Alexandra Petracchi )
terça-feira, 31 de julho de 2012
eu, rainha Margô Maluca
Eu realmente não entendo porque as pessoas não se deixam ficar malucas de vez em quando ou por que elas acham minhas ideias malucas! Se a caixa de lápis de cor tem tantas cores, porque usar apenas uma ? Isso e outras coisas eu não entendo...Então abri as janelas do meu quarto e deixei o vento entrar, como sempre faz nas manhãs de todos os dias. Entrou já bagunçando o meu lindo cabelo, mas isso não tem problema, porque meu cabelo sempre fica lindo! E olhei as flores do jardim e elas sempre das mesmas cores, coitadinhas, talvez nem saibam que existam outras cores! E me deu uma ideia assim : vou buscar outras cores, outros brilhos! E simplesmente saí. Linda e maravilhosa. E coloquei meus lindos sapatos vermelhos de amor, meu lindo vestido de veludo. E fui, atravessei a ponte e entrei num mundo que nem me lembrava que existia! O sol tinha acabado de nascer e o céu ainda estava clareando, mas eu já estava toda iluminada de ideias! E fui andando, andando...e confesso : aqueles benditos sapatos não eram assim muito apropriados para uma caminhada na floresta, mas eu só tenho sapatos assim! Senti meus pezinhos gritando lá dentro. Pobrezinhos. Enquanto eu os salvava dos sapatos vermelhos eu vi um senhorzinho e ele me olhava como se tivesse visto um mistério! Eu sorri e ele sorriu também. Aquele sorriso me encheu o coração! E falei das minhas ideias maravilhosas e de novo aquela cara de espanto que sempre vejo. Mas ele era muito bonzinho e quando viu meus pezinhos cheios de bolhas me ofereceu uma pousada no seu castelo, o que aceitei de bom grado! Afinal já estava bem cansada...Ah! E foi uma noite maravilhosa! E tinha crianças lá, os netos do senhorzinho, e elas adoraram minhas ideias! As crianças sempre me entendem! Acho que temos a mesma alma...
( ilustração Rebeca Dautremer - http://www.rebeccadautremer.com/ )
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Eu vi a Rainha Margô Maluca!
A primeira vez que vi sapatos assim vermelhos foi quando uma certa Rainha Margô Maluca pisou meu reino com os cabelos já descacheados de vento, a roupa vermelha como um coração vivo me aparece na lembrança como uma única coisa que nunca esquecerei naquele dia de inverno. O rosto de uma brancura que parecia neve e uma risada que parecia o verão. Eu , um senhor de certa idade avançada e lembranças antigas achei aquela rainha Margô um pouco maluca, assim como o nome dela. Disse que queria descobrir o mundo que existia depois da ponte, que estava procurando animais de outras estampas , passarinhos que cantassem outras músicas, flores de cores brilhantes. Imagina, eu jamais tive dessas curiosidades e se eu achar desses bichos estranhos vou é embora daqui! Mas a Rainha Margô Maluca tinha a certeza que esse mundo existia e falou com tanto amor que até comecei a acreditar nas palavras dela! Essa rainha encanta a gente com as palavras, elas vão saindo assim aos montes e de uma vez de sua boca sorridente. O sol já estava se despedindo e eu só esperando ela perguntar se as estrelas dançavam, porque já estava aprendendo o jeito dela. Mas só sorriu bonito e disse que adorava o céu estrelado. Quando ela chegou no meu simples castelo as crianças a adoraram, os meus netos. Foi uma noite de muitas histórias!
( ilustração Anja Klaus http://anjaklauss.ultra-book.com/portfolio )
sábado, 9 de junho de 2012
A viagem da Rainha Margô Maluca - parte I
Rainha Margô Maluca abriu a janela e deixou o vento entrar. Suspirou. E sonhou com outras paisagens, outras ruas e outros risos.E imaginou um arco-íris a nascer além da ponte. Imaginou bichos com estampas diferentes. Imaginou um mundo mais colorido que o seu. Imaginou ainda mais um monte de coisas.Porque imaginar não era um problema para a rainha. Um mundo de coisas que não existiam no seu reino (e será que existiam em outros reinos?). Rainha Margô Maluca andava entediada de ver a mesma campina verde de flores estranhas e tristes. As mesmas vozes, os mesmos pássaros cantando as mesmas músicas. Os dias sempre iguais. E decidiu viajar de férias . Decidiu assim sozinha e não contou nada pra ninguém. Era seu segredo secreto inventado de última hora. A ideia iluminou seu espírito , iluminou seu coração. E assim toda iluminada saiu pelas portas dos fundos do castelo. O vento a soprar canções nos seus ouvidos e a espalhar seu cabelo de algodão. Saiu com seu sempre vestido vermelho de veludo e seus sapatos de coração. Não levou mais nada, só a vontade de conhecer outros horizontes . Pensou até que ninguém sentiria a sua falta. Imagina, quem não sentiria a falta da rainha? E Rainha Margô Maluca sem um pingo de maluquice saiu toda feliz de curiosidade. O que teria do outro lado da ponte? Será que ela encontraria o mundo imaginado por ela? Como seria a vida dos seus súditos sem a risada da Rainha Margô Maluca? Enquanto essas perguntas voavam pelo ar, ela ia andando, andando, cantando e imaginando esse mundo colorido.Será que ele existia? Será?
( ilustração Mariana Kalacheva - http://kalacheva.com/en/ )
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