quinta-feira, 27 de setembro de 2012

o diário da Rainha Margô Maluca





acordei com uma saudade do ontem, de um ontem que fica lá longe na memória, um ontem que não é o dia que dormiu e acordou hoje, é um ontem de outros tempos. Não sei explicar as coisas direito, nunca soube, sou assim tão atrapalhada para explicar... será que é por isso sou chamada de Rainha Margô Maluca? As minhas ideias coloridas, minhas músicas favoritas, tudo era motivo de risadas no meu reino e um dia inventei de andar o mundo e atravessar a ponte, enfiei meus sapatinhos vermelhos dentro da lama, nasceram calos enormes nos meus pés, o vestido rasgou-se em véus. Meu cabelo revoltou-se. Mas era tudo aventura, era ainda tudo descoberta. Encontrei outro castelo cheio de crianças e elas adoraram minhas ideias e não me acharam maluca, me disseram que queriam também encontrar essas novidades todas que imagino. Mas hoje acordei com essa saudade de um ontem de longe, do cheiro  do bolo, do vento bagunceiro, das flores do meu jardim. Mas...ainda nem descobri as coisas maravilhosas desse mundo! Minhas descobertas ainda nem entraram na minha bolsa vermelha!

Ainda não posso voltar para o castelo. Meu sétimo sentido diz que ainda tenho muito a descobrir! então vou escrever um diário : AS Aventuras da Rainha Margô Maluca ! Minhas ideias estão aparecendo e a saudade do ontem vai adormecer logo, logo!

Adoro ideias!


( ilustração - Alexandra Petracchi )

terça-feira, 31 de julho de 2012

eu, rainha Margô Maluca



Eu realmente não entendo porque as pessoas não se deixam ficar malucas de vez em quando ou por que elas acham minhas ideias malucas! Se a caixa de lápis de cor tem tantas cores, porque usar apenas uma ? Isso e outras coisas eu não entendo...Então abri as janelas do meu quarto e deixei o vento entrar, como sempre faz nas manhãs de todos os dias. Entrou já bagunçando o meu lindo cabelo, mas isso não tem problema, porque meu cabelo sempre fica lindo! E olhei as flores do jardim e elas sempre das mesmas cores, coitadinhas, talvez nem saibam que existam outras cores! E me deu uma ideia assim : vou buscar outras cores, outros brilhos! E simplesmente saí. Linda e maravilhosa. E coloquei meus lindos sapatos vermelhos de amor, meu lindo vestido de veludo. E fui, atravessei a ponte e entrei num mundo que nem me lembrava que existia! O sol tinha acabado de nascer e o céu ainda estava clareando, mas eu já estava toda iluminada de ideias! E fui andando, andando...e confesso : aqueles benditos sapatos não eram assim muito apropriados para uma caminhada na floresta, mas eu só tenho sapatos assim! Senti meus pezinhos gritando lá dentro. Pobrezinhos. Enquanto eu os salvava dos sapatos vermelhos eu vi um senhorzinho e ele me olhava como se tivesse visto um mistério! Eu sorri e ele sorriu também. Aquele sorriso me encheu o coração! E falei das minhas ideias maravilhosas e de novo aquela cara de espanto que sempre vejo. Mas ele era muito bonzinho e quando viu meus pezinhos cheios de bolhas me ofereceu uma pousada no seu castelo, o que aceitei de bom grado! Afinal já estava bem cansada...Ah! E foi uma noite maravilhosa! E tinha crianças lá, os netos do senhorzinho, e elas adoraram minhas ideias! As crianças sempre me entendem! Acho que temos a mesma alma...


( ilustração Rebeca Dautremer - http://www.rebeccadautremer.com/ )

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Eu vi a Rainha Margô Maluca!



A primeira vez que vi sapatos assim vermelhos foi quando uma certa Rainha Margô Maluca pisou meu reino com os cabelos já descacheados de vento, a roupa vermelha como um coração vivo me aparece na lembrança como uma única coisa que nunca esquecerei naquele dia de inverno. O rosto de uma brancura que parecia neve e uma risada que parecia o verão. Eu , um senhor de certa idade avançada e lembranças antigas achei aquela rainha Margô um pouco maluca, assim como o nome dela. Disse que queria descobrir o mundo que existia depois da ponte, que estava procurando animais de outras estampas , passarinhos que cantassem outras músicas, flores de cores brilhantes. Imagina, eu jamais tive dessas curiosidades e se eu achar desses bichos estranhos vou é embora daqui! Mas a Rainha Margô Maluca tinha a certeza que esse mundo existia e falou com tanto amor que até comecei a acreditar nas palavras dela! Essa rainha encanta a gente com as palavras, elas vão saindo assim aos montes e de uma vez de sua boca sorridente. O sol já estava se despedindo e eu só esperando ela perguntar se as estrelas dançavam, porque já estava aprendendo o jeito dela. Mas só sorriu bonito e disse  que adorava o céu estrelado. Quando ela chegou no meu simples castelo as crianças a adoraram, os meus netos. Foi uma noite de muitas histórias!




( ilustração Anja Klaus http://anjaklauss.ultra-book.com/portfolio )

sábado, 9 de junho de 2012

A viagem da Rainha Margô Maluca - parte I



Rainha Margô Maluca abriu a janela e deixou o vento entrar. Suspirou. E sonhou com outras paisagens, outras ruas e outros risos.E imaginou um arco-íris a nascer além da ponte. Imaginou bichos com estampas diferentes. Imaginou um mundo mais colorido que o seu. Imaginou ainda mais um monte de coisas.Porque imaginar não era um problema para a rainha. Um mundo de coisas que não existiam no seu reino (e será que existiam em outros reinos?). Rainha Margô Maluca andava entediada de ver a mesma campina verde de flores estranhas e tristes. As mesmas vozes, os mesmos pássaros cantando as mesmas músicas. Os dias sempre iguais.  E decidiu viajar de férias . Decidiu assim sozinha e não contou nada pra ninguém. Era seu segredo secreto inventado de última hora. A ideia iluminou seu espírito , iluminou seu coração. E assim toda iluminada saiu pelas portas dos fundos do castelo. O vento a soprar canções nos seus ouvidos e a espalhar seu cabelo de algodão. Saiu com seu sempre vestido vermelho de veludo e seus sapatos de coração. Não levou mais nada, só a vontade de conhecer outros horizontes . Pensou até que ninguém sentiria a sua falta. Imagina, quem não sentiria a falta da rainha? E Rainha Margô Maluca sem um pingo de maluquice saiu toda feliz de curiosidade. O que teria do outro lado da ponte? Será que ela encontraria o mundo imaginado por ela? Como seria a vida dos seus súditos sem a risada da Rainha Margô Maluca? Enquanto essas perguntas voavam pelo ar, ela ia andando, andando, cantando e imaginando esse mundo colorido.Será que ele existia? Será?






( ilustração Mariana Kalacheva - http://kalacheva.com/en/ )

terça-feira, 15 de maio de 2012

desenhos de água




Eu desenhei pegadas no chão. Desenhei com água enquanto mamãe lavava a cozinha. As minhas pegadas de água andavam por toda a casa. E depois levei minhas pegadas para o quintal e lá elas desapareciam debaixo do sol. Iam sumindo assim devagarinho e eu ia lá na cozinha e molhava meus pezinhos e voltava a desenhar pegadas no quintal. ERa bem divertido e mesmo com mamãe  pedindo para parar com a brincadeira eu continuava. Também desenhava com a ponta do dedo desenhos de água, e tudo ia sumindo. Acho que o sol estava comendo meus desenhos , então eu desenhava bolos bem grandes, de casamento que são os mais gostosos de todos, e desenhava bichinhos também. Aprendi a desenhar gatinho e cachorrinho. Faz um círculo grande e em cima um pequeno, que é a cabeça, depois as patinhas, as orelhinhas, os olhinhos, o bigodinnho e...o rabinho!! Mas o sol andava tão fominha que eu nem conseguia terminar o risco e ele ia comendo antes de eu terminar! Queria mostrar minha arte para mamãe, mas quando ela foi ao quintal já não tinha nem um desenho...o sol comeu tudo! Mamãe deu risada e disse que bem sabia a arte que eu estava fazendo. Mamãe também tinha o poder da adivinhação? E depois que o sol comeu bastante e estava de barriga cheia,ele foi dormir. E eu também fui e sonhei a noite toda com meus desenhos de água.

( ilustração Nicolas Gouncy )

terça-feira, 10 de abril de 2012

o liVRO da caPa verMElha




A vovó Filomena anda com umas ideias diferentes ultimamente e acho que foi depois que ela ficou trancada na biblioteca. Estava ela lá limpando as estantes, tirando o pó adormecido dos livros, acarinhando suas páginas e de repente veio o vento e pá fechou a porta da biblioteca ,a chave do lado de fora caiu e foi parar debaixo do sofá. Ficou trancada na biblioteca e ninguém sabia que ela estava lá, só o vento... e pensa que ela se chateou ?  ou bateu desesperada na porta ? ou fez escândalo para tirarem-na dali ? Não! Ali era o verdadeiro paraíso! Colocou a música de seus discos de vinil para tocar e começou a viajar nas páginas dos livros, a continuar sua limpeza cuidadosa quando achou um livro de capa vermelha linda que a chamava  venha, venha , vovó pegou e quando abriu que surpresa : era seu álbum de casamento! Há tanto tempo ali guardado ela nem se lembrava mais! Ela de vestido branco de princesa e um sorriso apaixonado, o vovô Petrônio de terno e cara de bobo atrapalhado. Ela com o vestido a arrastar no chão , a dançar a valsa , ele com a gravata a amarrar o pescoço e a desencontrar os pés na dança. Ela sem desistir de sorrir, ele sem esquecer de dizer eu te amo. Dançavam no salão enquanto a música tocava e o vovô gritava . Gritava? Vovó Filomena despertou das lembranças com os gritos do vovô Petrônio, como se ela estivesse em grandes apuros. Abriram a porta e encontraram vovó Filomena com cara de felicidade e acreditem depois que saiu de lá anda com vontade de dançar valsas, a comemorar o encontro com vovô Petrônio e a dizer eu te amo a toda hora e pra todo mundo. Acho que a biblioteca deixa a gente maluco.

terça-feira, 27 de março de 2012

um BaLÉ engRAçaDO


O vento levou o lenço colorido da vovó Filomena. O lenço rodopiava no ar, se contorcia , se espalhava ,  abria suas estampas no ar. O vento brincava com o tecido fino do lenço colorido da vovó Filomena, dançava com ele lá em cima, viajava pelos galhos das árvores, nos telhados da casa , pelo sono do cachorro Filósofo. O lenço voava com sua cor amarela e flores vermelhas, brincando com a vovó que ficava na ponta dos pés tentando pegá-lo com os dedos finos esticados no alto. Vovô Petrônio ria da brincadeira do vento e do balé desajeitado da vovó Filomena que de cabelos soltos e bagunçados não achava graça nenhuma mas logo também começou a rir, porque o seu lenço já não estava mais sozinho: agora estava acompanhado do chapéu do vovô Petrônio, os dois dançavam juntos : o chapéu e o lenço. O chapéu  dava piruetas fantásticas no ar, vovô Petrônio  tentava pegá-lo e segurando o cabo da vassoura tentava pescá-lo , mas o chapéu travesso sempre fugia. O vento também trouxe a música dos discos empoeirados da vovó Filomena, era o que faltava para aquele balé engraçado ficar completo. A música tocava embalando a dança do lenço e do chapéu . Embalava a dança engraçada da vovó Filomena e do vovô Petrônio. Enquanto isso o cachorro Filósofo sonhava.


( ilustração Rebecca Dautremer )